Como calcular o lucro real do ateliê de laços (sem ilusão de caixa)
Faturamento não é lucro. Veja como montar a conta completa — material, hora de trabalho e fixos — pra saber o que sobra de verdade no ateliê de laços.
Recebi R$ 1.200 em transferências no mês. Na hora fiquei feliz. Aí sentei pra calcular o que sobrou depois do fio, da fita, da cola, do elástico, das sacolas, do tempo que passei na bancada e da mensalidade do celular que uso pra atender cliente — e o número ficou feio.
Era lucro de R$ 180.
Isso não é caso extremo. É o padrão de quem acompanho nos grupos de artesãs: confunde faturamento com lucro, trabalha muito e não sabe por quê a conta não fecha no final do mês. Neste post vou te mostrar a conta completa que mudou o jeito que eu gerencio o ateliê — três blocos de custo que a maioria ignora, e como juntar tudo numa régua simples.
A tese: faturamento sem custo real é ilusão
Existe um erro que aparece em 9 de cada 10 conversas que tenho com artesãs iniciantes: elas calculam o preço olhando só pra fita e pra cola.
“Gastei R$ 2,50 de material, vendo a R$ 18 — sobram R$ 15,50. Tô bem.”
Não. R$ 15,50 não é lucro. É margem bruta antes de descontar sua hora, seus fixos e as taxas de plataforma. O que sobra depois de tudo isso é o lucro real — e ele costuma ser bem menor do que parece. Às vezes é negativo.
O problema não é o preço do laço. É que a conta está incompleta.
Bloco 1 — Custo de material (o que a maioria calcula)
Este é o único bloco que a maioria anota. E mesmo aqui tem furos.
Como montar a conta:
Liste cada insumo do laço, o preço da embalagem em que comprou e calcule o custo por unidade usada. Exemplo para um laço boutique gorgurão 38mm:
| Material | Qtd. usada | Custo unitário | Custo no laço |
|---|---|---|---|
| Gorgurão 38mm duplo face | 40cm | R$ 0,60/m | R$ 0,24 |
| Cetim 22mm (miolo) | 12cm | R$ 0,40/m | R$ 0,05 |
| Elástico nylon 4,5cm | 1 unid. | R$ 0,18/unid. | R$ 0,18 |
| Linha encerada | ~1m | R$ 0,02/m | R$ 0,02 |
| Cola quente (bastão) | 1/3 bastão | R$ 0,90/bastão | R$ 0,30 |
| Sacola kraft + papel seda | 1 kit | R$ 0,95/kit | R$ 0,95 |
| Total material | R$ 1,74 |
Repare na sacola: a maioria esquece a embalagem. O laço sai da sua mão dentro de alguma coisa — isso tem custo.
Se você vende com tag personalizada, etiqueta adesiva com sua marca ou cartela impressa, soma aí também. Esses centavos fazem diferença em escala.
Bloco 2 — Custo da sua hora (o que quase todo mundo ignora)
Este é o bloco que mais dói de calcular — porque revela que muitas artesãs estão trabalhando de graça ou quase.
Defina quanto você quer ganhar por hora de trabalho. Não é salário mínimo se você não quer trabalhar por salário mínimo. Escolha um número honesto.
Vamos usar R$ 20/hora como referência. Um laço boutique leva, em média, 20 minutos de bancada para quem já tem prática (costura do centro, miolo, montagem na base). São 3 laços por hora.
Custo da hora por laço = R$ 20 ÷ 3 = R$ 6,67
Agora vem a parte que ninguém gosta de ouvir: o tempo de bancada não é todo o seu tempo. Tem tempo de atendimento no WhatsApp, de empacotar, de responder stories, de ir buscar material. Esse tempo também é trabalho.
Uma regra simples que uso: multiplico o tempo de bancada por 1,4 pra cobrir o tempo de gestão. Então:
Custo hora total por laço = R$ 6,67 × 1,4 = R$ 9,34
Se você aprendeu a precificar o laço pra ter lucro, sabe que a hora é o item que mais pesa no preço — e o que mais se perde quando a artesã aceita pedido por impulso sem calcular.
Bloco 3 — Custos fixos rateados (o que aparece no final do mês)
Aqui mora a maior surpresa. Seus fixos existem independente de quantos laços você fez.
Monte a lista dos seus fixos mensais relacionados ao ateliê:
| Custo fixo | Valor mensal |
|---|---|
| Celular (plano + app) | R$ 60,00 |
| Internet | R$ 80,00 (rateio 50%) = R$ 40,00 |
| Energia elétrica (bancada + ferro de passar) | R$ 30,00 (estimativa) |
| Plataforma de venda (taxa mensal, se tiver) | R$ 29,90 |
| Embalagem de reposição (frete do fornecedor) | R$ 25,00 |
| Total fixos mensais | R$ 184,90 |
Agora divide pelos laços que você produz por mês. Se você faz 60 laços/mês:
Fixo por laço = R$ 184,90 ÷ 60 = R$ 3,08
Se você vende por marketplace ou Instagram com link de pagamento, tem taxa sobre cada venda — em geral entre 2% e 5%. Num laço de R$ 18, são R$ 0,36 a R$ 0,90 a mais. Entra aqui.
A conta completa — o número que importa
Juntando os três blocos do exemplo:
| Bloco | Valor |
|---|---|
| Custo de material | R$ 1,74 |
| Custo da hora (bancada + gestão) | R$ 9,34 |
| Fixos rateados | R$ 3,08 |
| Custo total por laço | R$ 14,16 |
Se você vende esse laço a R$ 18:
Lucro por laço = R$ 18 − R$ 14,16 = R$ 3,84 (margem de 21%)
É real? Sim. É bom? Depende. Para produto de volume (laço simples de pronta-entrega), 20-25% de margem é razoável — desde que você feche volume. Para laço personalizado com maior complexidade, você deveria estar em 35-45%.
O problema não é a margem em si. O problema é quando a artesã chega a R$ 1.200 de faturamento, acha que ficou com tudo isso, e no dia 30 não sabe pra onde foi o dinheiro.
A conta acima mostra que, com 60 laços a R$ 18 cada:
- Faturamento: R$ 1.080
- Custo de material total: R$ 104,40
- Custo da hora total: R$ 560,40
- Fixos totais: R$ 184,90
- Lucro real: R$ 230,30
É diferente de R$ 1.080. Muito diferente.
O contra-argumento honesto
Essa conta tem uma fragilidade: o custo da hora é um número que você escolhe, não um custo que aparece na nota fiscal. Se você estiver começando e ainda não vende volume suficiente pra pagar a si mesma, pode calcular sem a hora e tratar o ateliê como fase de investimento — mas precisa ser consciente disso, não acidental.
O risco de não incluir a hora no cálculo é exatamente esse: você trabalha 4 horas por dia, vê dinheiro entrar, e nunca percebe que está se pagando menos que o salário mínimo por hora. Isso funciona por 6 meses. Depois vai frustrar.
Antes de organizar as encomendas do ateliê sem se enrolar, a conta de custo real precisa estar fechada — porque encomenda a preço errado em volume é prejuízo escalado.
Onde isso te leva
Com a conta completa na mão, você tem três caminhos:
1. Ajustar o preço. Se o custo está saindo R$ 14,16 e você vende a R$ 14, você está no zero. Precificar com critério de custo real e margem não é opcional — é sobrevivência do ateliê.
2. Reduzir custo de material. Comprar fita em rolo maior (100m em vez de 10m), negociar com fornecedor fixo, compartilhar pedido com outra artesã. A diferença no custo unitário pode ser de 30-40%.
3. Aumentar volume no modelo certo. Aumentar produção sem rever preço não resolve. Aumentar produção depois de fechar a conta correta — e descobrir que a margem é saudável — é o que escala o ateliê.
Um detalhe que muita gente aprende tarde: montar um kit de laços pra vender em conjunto ajuda a diluir o custo de embalagem e atendimento por unidade, melhorando a margem sem subir o preço individual.
A diferença entre quem fica no ateliê e quem desiste em 12 meses raramente é habilidade com a fita. É quem sabe o que sobra de verdade.
Fontes:
- Sebrae — Formação de Preço para Artesanato: sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/como-precificar-o-artesanato
- Sebrae — Custo Fixo e Variável para MEI: sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/custos-fixos-e-variaveis
- IBGE — Pesquisa Nacional de Artesanato 2023 (referência setorial): ibge.gov.br
Escrito por
Renata Pacheco
Laços de bebê feitos à mão: passo a passo, técnicas e tendências


